21.8.09

Intuição feminina

A todo momento, cutucando a unha e mordendo-se por dentro, tinha a impressão de que algo errado estava prestes a acontecer.

Após muitos erros, quando ele não aguentou mais a desconfiança e fugiu, ela esvaziou-se de dúvidas e, por fim, encheu a boca de razão para falar que já sabia.

20.8.09

Espinho

Seis e meia, sem outra solução em mente, virava um copo da pinga mais amarga.

Tentava, em vão, fazer descer o dia.

19.8.09

Corda bamba

Enquantos as gotas escorriam, movia-se freneticamente, desesperada

Seu par acabara de ir ao chão, amarrotado

O pregador não resistiu

18.8.09

Em pé

Tirou a bota para dar um pouco de ar ao pé. Uma crosta endurecida de sangue cobria os três dedos menores. No dedão e no outro, o sangue ainda corria, agora solto.

Já havia quase duas semanas que recebera o par de botas em uma igreja e até agora arrependia-se por ter sorrido e falado que cabia direitinho. Na hora, apavorou-se com a idéia de que não lhe sobraria nenhum calçado além das botas e, sem outra opção, teria que voltar a caminhar no asfalto quente - às vezes, tinha a impressão de que o calor derreteria até os pneus dos carros, não fossem estes tão rápidos.

Sem tempo para perder indo ao hospital para ser ignorado, voltou a olhar para o pé, limpou a ferida com o único pedaço da meia que ainda não estava empapado de sangue e arriscou encostá-lo no chão. Ao sentir o calor do asfalto, desolado, puxou o pé de volta para cima, calçou a bota com muito esforço e continuou andando, o dia seria longo.

17.8.09

Baleado

Quando chegava em casa cambaleando, sentia-se como um voluntário do atirador de facas

Enquanto a cama girava, ele ficava inerte, incapaz de desviar das acusações

16.8.09

Surpresa

Ele nunca abaixava a guarda, mas, por ela, ficava de coração mole (com exceção das noites de bebedeira, de quinta a segunda-feira). Naquela noite de quarta, chegou cedo, como esperado, e deparou-se com ela esperando na sala, de camisola, com uma venda nas mãos.

Vendado, esperou ansioso, perguntando-se o que lhe aguardava. Bateu os pés, coçou a nuca e, após ouvir os passos dela aproximando-se de volta, ficou paralisado, em pé, no meio da sala.

Após tantos anos de submissão, surpreendeu-se, nunca pensou que um dia ela teria coragem de vingar-se.

15.8.09

Inigualável

Ao ser questionado sobre sua arte desarmônica, sem critério ou direção, explicava com ar de superioridade:

- Tenho um estilo diferenciado, único.

14.8.09

Desnascimento

Do século XVI ao século XIX, a humanidade buscou desenvolver aparelhos e máquinas que lhe poupassem o esforço físico, permitindo assim o aproveitamento da capacidade cerebral.

A partir do século XX, a tendência inverteu-se. A cada semana aparece, nas academias, um aparelho mais exigente e, nos escritórios, uma máquina mais eficiente.

13.8.09

Nada a perder

Sem ter uma casa para levar desaforo, armou o barraco.

12.8.09

Mate

Desde o casamento, acostumou-se a ser tratada como uma rainha, ia para onde quisesse, quando quisesse. Quase todos os desejos lhe eram atendidos, com exceção dos que revelava apenas entre quatro paredes. No entanto, devido às regalias, as dificuldades do marido pouco lhe incomodavam até aquela tarde chuvosa.

Ao arrumar as gavetas, para evitar que os velhos pijamas embolorassem, encontrou as cartas e bilhetes. Descobriu naquele momento que ele só se interessava pelas outras rainhas.

Tomada por ira, desgovernada, deixou-se levar pelo primeiro peão que cruzou pela casa.

11.8.09

Onipresente

Ele está presente nos destinos de todos nós, ainda que alguns não lhe dêem a mínima atenção. Enquanto olham para o alto, alguns rezam para que lhes abra os caminhos enquanto outros xingam, culpando-lhe por fechá-los.

Em cada terra chamam-lhe de uma maneira, mas lá na minha, é sinaleiro.

10.8.09

Admirador secreto

Pensou em arriscar-se contando
mas ficou em dúvida

se mais vale um não na cara
ou um talvez voando

9.8.09

Ambicioso

Ao ser questionado sobre o que queria ser quando crescesse, não tinha dúvidas, já tinha a resposta na ponta da língua, queria ser sorveteiro. Os parentes e vizinhos riam, evocavam a inocência infantil e o desprendimento ao dinheiro.

Indiferente aos comentários e apertões na bochecha, o garoto, que sempre pagava o picolé com uma nota de dez, contemplava o enorme bolo de dinheiros que o sorveteiro tirava do bolso momentos antes de lamber o indicador e separar-lhe o troco. Deleitava-se, não via a hora de poder lamber o indicador e embaralhar sua própria fortuna de trocados.

8.8.09

Percepção precoce

Naquela idade - que ele mesmo pronunciava orgulhoso, enquanto exibia três dedos da mão direita, depois virava a mão para si mesmo e, por fim, usando a mão esquerda, corrigia puxando mais um dedo para cima - aprendia tudo observando.

Um dia qualquer, acordou cedo e rumou para a cozinha, ávido por um bom café da manhã. Por lá, não encontrou os pais, entre gravatas e sapatos de salto, notícias e sobressaltos, com o café pronto. Logo, concluiu que havia chegado o final de semana.

Sem desistir do café da manhã, arrastou a cadeira até a frente do armário, subiu na cadeira, abriu a prateleira, alcançou a lata de Nescau, colocou o Nescau na prateleira mais baixa, desceu da cadeira e arrastou-a de volta para baixo da mesa. Depois disso, abriu a geladeira, tirou os potes de sorvete com sobras do jantar, que já o haviam enganado uma vez, colocou-os no chão, retirou o leite, colocou os potes de volta ao lugar. Fazendo um esforço enorme, apoiando as mãos na beirada da mesa, fez um esticou o corpo todo para fechar a geladeira com o pé - igualzinho o pai fazia. Tendo conseguido o leite e o Nescau, faltava apenas uma colher para misturá-los. Sem pensar duas vezes, abriu a gaveta dos talheres e, mesmo sem conseguir enxergá-los, por causa da altura, pegou uma das colheres, que ficavam à esquerda, e fechou a gaveta - dessa vez não conseguiu imitar o pai, que a fechava com o quadril.

Após preparar o leite com Nescau, derrubando apenas um tanto da mistura quando começou a mexer com a colher, foi para a sala e ligou a televisão, estava na hora dos desenhos. Sentou-se ao sofá e esticou novamente o corpo inteiro para alcançar a mesinha com os pés. Tentou parecer relaxado como o pai naquela posição, mas não conseguiu. Em alguns minutos já estava sentado sobre as pernas cruzadas.

Antes dos pais acordarem, já havia tomado banho e, quando eles finalmente acordaram e começaram a se arrumar, ele já estava pronto para sair, com a camiseta nova do Batman. Afinal, era sábado, dia de almoçar fora.

Chegando ao restaurante de sempre, conhecido pelas comidas típicas, o preferido pelos turistas naquela região, o pai solicitou a mesma mesa para três. Ao sentarem-se, o garoto começou a falar enrolado, forçando a garganta, inventando uma sequência de palavras. Os pais, atônitos, olhavam para ele sem entender. Quando o pai perguntou o que ele estava fazendo, respondeu cochichando no ouvido:

- Eu andei reparando que garçom é mais legal e que a comida vem mais rápido para quem não sabe falar direito.